D-andanças

Congelei a cena e me perdi no cenário. Lentamente apreciei a força do sol e a sombra que me acompanhou até em casa. Tentei andar aparentemente fazendo silêncio, enquanto meus pensamentos balburdiavam. Nas pálpebras as últimas gotas cristalinas figurantes daquele momento final e decisivo. Entendi que naquele instante, olhar para dentro de mim era mais urgente do que enxergar as pessoas.

Passado

Se eu pudesse descrever-te para consolar minhas mágoas não incumbiria todas as angústias que passei. Por isso prefiro as minudências. No espelho tu és o reflexo de lágrimas, noites acordadas e um pouco de raiva. Pensar me remete uma alusão, que está esvaindo, se perdendo na avaria da memória. Por ocasiões me rematei ao pretérito e nem o recôndito da alma conseguiu o mérito de transformar palavras em decisões. Até que fui vencida pelo cansaço e segui indiferente. Não vale a pena se prender em lembranças danosas. É como cultivar uma tortura surreal. Porém abstrair é o caminho da liberdade preenchida de experiências doces e amargas. Observar a brisa se converter em ventania é apreciar o mistério, mas alimentar uma chama delida é fogo de palha. O ensejo que te faz voltar é o mesmo que ignora o próximo momento. Nessa hora anti-horária surge a vontade do agora... Ir embora!

Hábito

Eu gosto do seu jeito, da veemência. De como o lusco-fusco passa em claro, da maneira imperceptível que nos aprofundamos em demasia. Eu gosto de nivelar nossos desejos para completar a reciprocidade. Não é aleive, já que o léxico entre nosso plural sempre foi leal. Eu gosto de sentir a chuva quando molha nossos lábios no inverno, de perfumar nossa cama com flores da primavera, de fazer piquenique no outono, de estar com você naquela praia deserta em pleno verão. Eu gosto dessa intensidade, com a qual sentimos a vida.

Eu gosto do seu jeito, do alvedrio. De como os dias ganham vida sem se prender ao supérfluo, da maneira simples que nos entendemos sem exigência. Eu gosto da liberdade que compartilhamos em segredo. Não há enigma, já que a surpresa entre nós é voltada as várias manias em comum. Eu gosto de perder a hora sem perceber, de dar gargalhadas por bel-prazer, de nosso vocabulário insano, de nossas músicas de anos. Eu gosto dessa sintonia, com a qual dividimos tanto.

Eu gosto do seu jeito, do êxito. De como os mimos se tornam donativos devido à falta do toque, da maneira como suas mãos afagam minha nuca. Eu gosto do trocadilho verbal imposto como um contrato duradouro. Não é negócio, já que a palavra é nossa garantia de continuidade. Eu gosto das suas atitudes inigualáveis, da desordem com que você se expressa, das suas cenas patéticas, de seus defeitos perdoáveis. Eu gosto dessa tranqüilidade, com a qual você me dá confiança.

• Para amar eu não preciso de muito, apenas de humor!

Por inteira!

A prática de me entender no meu próprio reflexo. Muitas vezes foi uma isca para me perder no desconhecido, embora tantas outras vezes com gostinho de apreciar o mistério. Resolvi adotar uma nova tática. Por me ver várias vezes na mesma situação. Arrisquei num súbito fogacho de liberdade e desvendei o meu interior, encontrando a paz. No olhar não mais aquele dia cinza, não mais aquele mórbido domingo, não mais aquela voz exaltada, não mais aquele apego constante. E a “metade” que nominei está contida particularmente. Porém unida a outra metade de mim. Numa fusão de aventura, experiência e deleite. Vejo-me por completa. Bem que a tentativa de fugir de algo que dominou o corpo, alma e coração tiveram força, mas fui preparada pelo sofrimento a me erguer e lutar a favor de meu sorriso. Minha nova mania!

O amor...

Visto como sentimento inefável
Nem sempre avassalador
Mas quase sempre sem explicação
Comporta chamas de uma paixão
Ainda assim é dito o rei
Um reinado egoísta
Onde cada um ocupa seu quadrado
Comandando um exército de sabedoria
Cavalgando no equilíbrio da impulsividade
Mesmo que complicado é um bem necessário.
Existem pessoas que o multiplicam
Outras subtraem
Alguns somam
Poucos aprendem a dividir
É um cálculo inexato
Exato quando não é de fato coroado.
Tão majestoso
Vestido de alegria
Faz saborear sem pressa um toque de cafuné
Soprando um aroma com cheiro de ternura

lo Evoé!


Os Mistérios Dionisíacos vez ou outra resolvem bater na minha porta da emoção. Com atribuições múltiplas uma mistura de ordem e caos. E a origem de renascer se faz presente quando coloco a capa de Dionísio. Abstraindo o subsolo como cenário do passado, afinal a primavera florir para todos. Assim festejo alegremente ao lado dos bondosos, preferências pelas noites invernais. Sendo a Força da Natureza, um duelo de luz e escuridão essencial para meu equilíbrio. Onde o misto dos prazeres se perde entre Dionísio e Baco. O excesso e lassidão caminham lado a lado. Porém, retirar dos excessos apenas vantagens motiva qualquer um a cair em tentação moderadamente por cada experiência.

•Coração e mente aberta!

Afirmação.

Não acredito que as pessoas mudem, mas não duvido que elas possam mudar coisas. Demasiadamente creio na evolução humana. De uma desprezível larva o bater das asas de uma borboleta.

Não acredito que no fim do poço há uma mola, mas que na escuridão existe uma luz. Precisamente uma forma de sair pela tangente. Como o desabrochar de um lírio puro e perfumado numa terra seca.

Não acredito na perfeição do ser humano, mas vejo como é perfeita a natureza. É indispensável viver sem reconhecer os erros e ressurgir dos tropeços com humildade. Alimentando a alma a cada começo.

Não acredito na burrice porque aprendi com os analfabetos o que o livro não soube ensinar. Evoluindo retirei lições das dores, de alguns espinhos muitas flores e assim sigo meu caminho.

Ave de Rapina

Vejo-te quase sempre no momento de caça.
E tu às vezes parece ter um bico de beija-flor.
Mas como tu vens e passa...
Não consigo te dar o que meu coração falou.
Sendo um instante necessário para guardar tanta emoção.
Quando pousas em minha mão és um alvo de admiração.
Tu voas livra e tão alto que não tenho chão.
Por ser raro que te guardo para não haver extinção.
Mas tu te lanças pelo mundo e eu te espero com devoção.
A distância faz do reencontro tamanha satisfação.
Tu és a liberdade que prende o meu coração.

Alta Costura

Bola, xadrez e listra.
Costura a menina do laço de fita,
que fita os olhos naquele cara da risca.
Na mesa há sempre um corte
a espera da retalhista,
que arrisca
tudo
pelo
artista.
Bolsa, vestido e calcinha.
Ela cose com agulha e linha
um figurino sem bainha.
Não utiliza dedal,
mas vai firme
e alinha
para
terminar
sua
modinha.

" Meu vocabulário"

Estou aqui a me quaquaquaricar ...
Veio-me o conversarino do finado
Dizer em tom maior que daria um braço
Mas veja só!
Daria um braço por uma noite
Apenas
Para fitar os seus saudosos olhos em mim
Ah coitchado!
Não entendeu o recado
Nunca quis pedaço
O que sempre busco não é absoluto
Mas é sensato
Chama-se VERDADE

RUBY

Às vezes você acorda de TPM e a única coisa que faz é se afogar em lágrimas, esquecendo o mundo lá fora. Perdida na feminilidade uterina de um planeta cor-de-rosa. E vem a ridícula da imaginação a tirar onda com seu dia triste. Fazendo um tipinho sórdido de causar lamúria, coisas do passado, perdas insignificantes, um objeto querido e toda futilidade da ocasião. A exigência como mera personagem deste cômico momento é de exclusão social. Poupe-me! A questão é... Um pouco de dosagem. Talvez usar o antídoto da felicidade nos dias que antecedem com a chegada, funcione. E alguma felizarda seja laureada. Fato que não presenciei, mas quem sabe. Nos dias vermelhos você parece virar uma espécie de quatro patas. Eles utilizam um tipo de faro e nos olham com olhos de caçador. Inocentes! Tentando despertar a fera que habita em você. Calma, um dia é da caça outro dia do caçador. A mulher sangra para o homem testar a paciência. É denominado “marido” o que no teste passar. Verdade seja dita! O seu tão chorado período acaba influenciando intrigas, separação, reconciliação, desabafo, melancolia e algumas cólicas. Bando de filhas de Maria. Cantava a saudosa Elis Regina, é um dom, uma certa magia. Basta de sortilégios! Você não escolheu esse compromisso e já nasceu com o fardo. Árduo trabalho de sangrar. Sangrando sem gostar, mas ovulando. Não serve de consolo e ao mesmo tempo nos consola. Sonhar e creditar esperança também faz parte da mulher. Quando a gente se perde em pensamentos, são gerados atos quase sempre admirados. E de tanta sensibilidade atribuída que chorar não custa nada para quem traz no corpo a marca de ser Mãe.

Lágrimas de crocodilo

Tem vezes que seu coração escolhe um apego qualquer e se depara com a ironia do destino. O que nunca foi sapo muito menos príncipe, continua no lago. Este é o fardo de quem escolhe errado! Como característica se faz de vítima e esconde o fato, relatando um drama que não faz parte do ato e faz da vida um feriado. Inteligente este papel de quem se diz apaixonado, vai profundo ao sentimento que ele criou no passado, assunto principal do consolo que o serve as damas do lado. Mal sabem elas! Que tudo é encenação do comediante cheio de papo... Conversa daqui, conversa de lá. Dramatizando uma mentira para atrair os olhares que no acaso perderão de vista a verdade do caso. Desse tipo têm vários e até choram, choram fácil. Às vezes criam convicções supostamente relativas ao pensamento. Mas como dizia minha Vó, querer não é poder. Um dia a máscara do palhaço cai e o resta apenas a fantasia de pierrot. No entanto, a tarefa árdua é conviver com a realidade. Chorar é um bem necessário, nem sempre por motivo dramático, mas pela circunstância de quem é sensível. Deste tipo é raro e não se encaixa no que descrevo. Voltando ao começo! Tem vezes que seu coração erra demora, mas depois acerta. A lamúria passa... Desse “tipo crocodilo” é passageiro. Alimentam-se de corpos, sobrevive dos pedaços como bicho insaciável.

SAUDADE...

...De temperar o mundo para agradar teu paladar,
de ficar olhando aquela estrela e ver a madrugada rolar,
de amanhecer sem pressa e nem hora de acordar,
de me despir de contos ao te olhar,
de fixar meus olhos na tua beleza esquecendo o planeta que nessas horas não para de girar,
de abraçar o desejo quando o beijo se faz demorar,
de mergulhar em sonhos ao sair do presente e no futuro fincar,
de viajar na imaginação e sorrir ao despertar,
de cobrir o frio em noite gelada de congelar,
do calor que molha a pele sendo a dois fácil de lidar,
do som de riso solto que a intimidade costuma deixar,
das brincadeiras sem hora de acabar,
das bobagens que só a gente sabe falar,
do percurso onde meus pés não vão mais caminhar,
de datas comemorativas que o tempo faz recordar,
da carícia que minha pele insisti adorar,
da trilha sonora que me fazia cantar,
de desvendar o compasso de cada contratempo ao dançar,
de me vestir de rainha para te coroar,
de ficar com preguiça e me enroscar em qualquer lugar,
do rotineiro domingo e seu tom a desleixar,
de unir palavras no jogo de rimar,
de fazer bico e desfazer quando algo mesmo que pequeno agradar,
de discar aquele número ao telefonar,
do ritual artístico que só quem viveu sabe contar.


* Don't look back ^^